Lidando com dilemas éticos nos négócios

June 21, 2023

Ética é uma palavra derivada do vernáculo grego “ethos“, que, por sua vez, significa “modo de viver”. Filosoficamente, a ética foca no comportamento de um ser humano dentro de um meio social.

Diferentemente de uma ciência exata como, por exemplo, a matemática, a ética é fundamentada em valores morais que, por sua vez, sofrem a influência de inúmeras variáveis. Dessa forma, ao analisar determinado caso, é preciso considerar todos os detalhes, pois um único pormenor específico é capaz de alterar significativamente o resultado da avaliação sob a ótica da ética.

Assim, dilemas éticos são frequentes, seja na vida pessoal ou profissional, já que se referem a uma situação em que há conflito entre dois ou mais princípios éticos.

O professor americano Rushworth Kidder, que fundou o Institute for Global Ethics, reconhece quatro tipos de dilemas éticos, nos quais diversos exemplos estariam incluídos:

1. Curto prazo x longo prazo.

2. Indivíduo x comunidade.

3. Verdade x lealdade.

4. Justiça x misericórdia.

Por sua vez, a revista Forbes elegeu oito dilemas éticos que podem atingir empresários conforme a lista abaixo:

1. Apoiar outras empresas quando os recursos são escassos – Mesmo que a empresa não disponha de recursos em abundância para cumprir sua função social, existem outras formas de fazê-lo, seja na forma de coaching ou, ainda, compartilhando serviços.

2. Comprometer a qualidade do produto – Ainda que haja um ávido apetite pelo lucro, comprometer a qualidade do produto pode ser o início do fim de um negócio. Ainda que possa haver a percepção de aumento de lucratividade, a tendência é de queda vertiginosa nas vendas em médio e longo prazo.

3. Fabricação em outro país – Ainda que o empresário tente gerar o seu negócio em seu país, desenvolvendo a economia local, ele pode, em muitas vezes, ser levado a estabelecer sua produção em países, cuja mão de obra, tributos e infraestrutura sejam mais rentáveis, de forma a garantir seu desenvolvimento sustentado.

4. Livrando-se de clientes problemáticos – Por mais que clientes sejam importantes, especialmente aqueles que proporcionam alta rentabilidade, existem clientes que impõem tantas exigências que praticamente inviabilizam a comercialização de produtos. Dessa forma, convém repensar até que ponto vale à pena sujeitar-se a tais exigências.

5. Resposta ao comportamento de colaboradores nas redes sociais – O alcance da internet nos dias atuais é tão crítico que o comportamento inadequado de colaboradores em redes sociais pode comprometer significativamente a imagem e a reputação da empresa, fazendo com que, o empresário tenha atenção e esteja preparado a responder a uma questão dessa natureza.

6. Manutenção de colaboradores devido ao senioridade na empresa – Por mais que o empresário deseje ser bom e reconheça aquele que o ajudou no seu crescimento, isso não significa que aquelas pessoas são as adequadas para levar o negócio ao patamar em que se deseja chegar.

7. Aceitação de candidatos a emprego de outras empresas concorrentes – Ao aceitar determinado candidato que critica o local em que trabalhou, que traz informações confidenciais ou que desvia clientes de seu antigo empregador, embora pareça ser vantajoso competitivamente, deve ser considerado que ele poderá fazer o mesmo com você amanhã.

8. Criação de marketing honesto – Essa é a melhor forma de construir credibilidade, o que é um pilar fundamental para o crescimento sustentado de qualquer negócio.

Ainda que os exemplos acima sejam focados nos dilemas éticos enfrentados por empresários, existem inúmeros outros dilemas éticos que ocorrem no ambiente de trabalho de um profissional. Passemos aos exemplos abaixo:

1. Liderança antiética – Infelizmente, muitos gestores não têm limites para atingir suas metas, seja por meio de suborno, fraudes ou conluios. A questão para o subordinado é aceitar tais práticas e garantir o seu emprego ou não.

2. Aceitação do crédito pelo trabalho dos outros – Especialmente em trabalhos em equipe, geralmente um ou dois se destacam e acabam alcançando o resultado, mas injustamente toda a equipe pode ser premiada.

3. Valores pessoais e valores corporativos – Não é incomum que por vezes haja um conflito entre os valores pessoais e os valores corporativos, fazendo com que o colaborador tenha que rever seus conceitos ou deixar a organização.

4. Administração de negócios pessoais no horário de trabalho – Embora seja claro para a maioria das pessoas que conduzir negócios concorrentes com o negócio da empresa é inaceitável, muitas ainda tem dificuldade de entender que é igualmente inaceitável dispor de seu horário de trabalho para resolver problemas de um negócio pessoal completamente diferente do negócio da empresa.

5. Assédio e discriminação – Essas questões infelizmente ainda são muito comuns em ambientes de trabalho, em que, sob um pretexto inadequado, profissionais são preteridos, humilhados ou oprimidos injustamente.

6. Propriedade e uso da propriedade intelectual – Colaboradores têm dificuldade em entender que o resultado de seu trabalho é de propriedade da empresa, que os remunera para tanto.

7. Metas inatingíveis – O estabelecimento de metas inatingíveis ou excessivamente desafiadoras, em vez de conduzir o negócio a um patamar de desenvolvimento elevado, pode desmotivar os colaboradores ou ainda levá-los a praticar ações ilícitas ou antiéticas.

8. Mentir no currículo – Apesar de cada candidato desejar ter as melhores referências em termos de educação e habilidades, mentir no currículo pode ter efeito devastador na credibilidade daquele candidato assim que descoberto.

9. Confidencialidade e revelação – O dever de confidencialidade é frequentemente violado por uma relação de amizade, de parentesco ou por outros motivos ainda menos nobres como ganhos pessoais.

10. Fofocas sobre colegas de trabalho – Esse tipo de iniciativa, que se inicia por uma vontade de se mostrar como alguém bem-informado ou que deliberadamente pretende difamar alguém, geralmente resulta em consequências desastrosas.

Portanto, ao se deparar com um dilema ético no ambiente do trabalho, deve-se adotar as seguintes cautelas:

  1. Refletir sobre o dilema: Procure entender claramente qual é o dilema ético em questão. Analise as diferentes perspectivas envolvidas e as possíveis consequências de cada curso de ação.
  2. Conhecer as políticas e os valores da empresa: Familiarize-se com as políticas, os valores corporativos e os princípios éticos da empresa em que trabalha. Compreenda as diretrizes e os princípios que devem ser seguidos e considere como eles se aplicam à situação em questão.
  3. Buscar orientação: Procure orientação de superiores, colegas de confiança ou profissionais de recursos humanos, sempre que possível, para compartilhar e ponderar suas sugestões. Discutir o dilema com pessoas que tenham experiência ou conhecimento relevante pode fornecer insights valiosos e ajudar a esclarecer a melhor abordagem.
  4. Avaliar as consequências: Considere as possíveis consequências de cada curso de ação disponível. Pense nas implicações para você, para os outros envolvidos, para a empresa e para a ética em geral. Pondere as alternativas de curto e longo prazo, além daquela que privilegie resultados mais positivos em detrimento de resultados mais negativos.
  5. Seguir sua consciência: Ouça sua voz interior e siga seus princípios éticos pessoais. Lembre-se de que é importante agir de maneira coerente com seus valores fundamentais, mesmo diante de pressões externas.
  6. Procurar soluções alternativas: Explore opções e soluções alternativas e análogas a situações já conhecidas que possam resolver o dilema de forma ética. Às vezes, pode ser possível encontrar uma terceira via que respeite os valores envolvidos e minimize danos.
  7. Comunicar-se de forma adequada: Se necessário, comunique sua posição às partes relevantes envolvidas no dilema. Expresse suas preocupações éticas de maneira clara, transparente, objetiva e respeitosa. Se possível, apresente sugestões construtivas para resolver o dilema de forma ética.
  8. Documentar tudo: Mantenha um registro detalhado de todas as etapas do processo, incluindo datas, locais, pessoas, conversas e decisões tomadas. Essa documentação pode ser útil no futuro caso surjam repercussões ou consequências inesperadas decorrentes da sua decisão.
  9. Buscar apoio externo: Se a situação persistir ou se você acreditar que ocorreu alguma violação ética séria, pode ser necessário buscar orientação externa, como um consultor jurídico, uma linha direta de ética ou uma agência reguladora adequada.

É preciso considerar que, assim como a própria ética, cada dilema ético pode chegar a um resultado influenciado por uma variável não existente em outro dilema ético análogo, por exemplo, a intenção do agente, os valores da empresa e assim por diante.

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Diferentemente de uma ciência exata como, por exemplo, a matemática, a ética é fundamentada em valores morais que, por sua vez, sofrem a influência de inúmeras variáveis. Dessa forma, ao analisar determinado caso, é preciso considerar todos os detalhes, pois um único pormenor específico é capaz de alterar significativamente o resultado da avaliação sob a ótica da ética.

Assim, dilemas éticos são frequentes, seja na vida pessoal ou profissional, já que se referem a uma situação em que há conflito entre dois ou mais princípios éticos.

O professor americano Rushworth Kidder, que fundou o Institute for Global Ethics, reconhece quatro tipos de dilemas éticos, nos quais diversos exemplos estariam incluídos:

1. Curto prazo x longo prazo.

2. Indivíduo x comunidade.

3. Verdade x lealdade.

4. Justiça x misericórdia.

Por sua vez, a revista Forbes elegeu oito dilemas éticos que podem atingir empresários conforme a lista abaixo:

1. Apoiar outras empresas quando os recursos são escassos – Mesmo que a empresa não disponha de recursos em abundância para cumprir sua função social, existem outras formas de fazê-lo, seja na forma de coaching ou, ainda, compartilhando serviços.

2. Comprometer a qualidade do produto – Ainda que haja um ávido apetite pelo lucro, comprometer a qualidade do produto pode ser o início do fim de um negócio. Ainda que possa haver a percepção de aumento de lucratividade, a tendência é de queda vertiginosa nas vendas em médio e longo prazo.

3. Fabricação em outro país – Ainda que o empresário tente gerar o seu negócio em seu país, desenvolvendo a economia local, ele pode, em muitas vezes, ser levado a estabelecer sua produção em países, cuja mão de obra, tributos e infraestrutura sejam mais rentáveis, de forma a garantir seu desenvolvimento sustentado.

4. Livrando-se de clientes problemáticos – Por mais que clientes sejam importantes, especialmente aqueles que proporcionam alta rentabilidade, existem clientes que impõem tantas exigências que praticamente inviabilizam a comercialização de produtos. Dessa forma, convém repensar até que ponto vale à pena sujeitar-se a tais exigências.

5. Resposta ao comportamento de colaboradores nas redes sociais – O alcance da internet nos dias atuais é tão crítico que o comportamento inadequado de colaboradores em redes sociais pode comprometer significativamente a imagem e a reputação da empresa, fazendo com que, o empresário tenha atenção e esteja preparado a responder a uma questão dessa natureza.

6. Manutenção de colaboradores devido ao senioridade na empresa – Por mais que o empresário deseje ser bom e reconheça aquele que o ajudou no seu crescimento, isso não significa que aquelas pessoas são as adequadas para levar o negócio ao patamar em que se deseja chegar.

7. Aceitação de candidatos a emprego de outras empresas concorrentes – Ao aceitar determinado candidato que critica o local em que trabalhou, que traz informações confidenciais ou que desvia clientes de seu antigo empregador, embora pareça ser vantajoso competitivamente, deve ser considerado que ele poderá fazer o mesmo com você amanhã.

8. Criação de marketing honesto – Essa é a melhor forma de construir credibilidade, o que é um pilar fundamental para o crescimento sustentado de qualquer negócio.

Ainda que os exemplos acima sejam focados nos dilemas éticos enfrentados por empresários, existem inúmeros outros dilemas éticos que ocorrem no ambiente de trabalho de um profissional. Passemos aos exemplos abaixo:

1. Liderança antiética – Infelizmente, muitos gestores não têm limites para atingir suas metas, seja por meio de suborno, fraudes ou conluios. A questão para o subordinado é aceitar tais práticas e garantir o seu emprego ou não.

2. Aceitação do crédito pelo trabalho dos outros – Especialmente em trabalhos em equipe, geralmente um ou dois se destacam e acabam alcançando o resultado, mas injustamente toda a equipe pode ser premiada.

3. Valores pessoais e valores corporativos – Não é incomum que por vezes haja um conflito entre os valores pessoais e os valores corporativos, fazendo com que o colaborador tenha que rever seus conceitos ou deixar a organização.

4. Administração de negócios pessoais no horário de trabalho – Embora seja claro para a maioria das pessoas que conduzir negócios concorrentes com o negócio da empresa é inaceitável, muitas ainda tem dificuldade de entender que é igualmente inaceitável dispor de seu horário de trabalho para resolver problemas de um negócio pessoal completamente diferente do negócio da empresa.

5. Assédio e discriminação – Essas questões infelizmente ainda são muito comuns em ambientes de trabalho, em que, sob um pretexto inadequado, profissionais são preteridos, humilhados ou oprimidos injustamente.

6. Propriedade e uso da propriedade intelectual – Colaboradores têm dificuldade em entender que o resultado de seu trabalho é de propriedade da empresa, que os remunera para tanto.

7. Metas inatingíveis – O estabelecimento de metas inatingíveis ou excessivamente desafiadoras, em vez de conduzir o negócio a um patamar de desenvolvimento elevado, pode desmotivar os colaboradores ou ainda levá-los a praticar ações ilícitas ou antiéticas.

8. Mentir no currículo – Apesar de cada candidato desejar ter as melhores referências em termos de educação e habilidades, mentir no currículo pode ter efeito devastador na credibilidade daquele candidato assim que descoberto.

9. Confidencialidade e revelação – O dever de confidencialidade é frequentemente violado por uma relação de amizade, de parentesco ou por outros motivos ainda menos nobres como ganhos pessoais.

10. Fofocas sobre colegas de trabalho – Esse tipo de iniciativa, que se inicia por uma vontade de se mostrar como alguém bem-informado ou que deliberadamente pretende difamar alguém, geralmente resulta em consequências desastrosas.

Portanto, ao se deparar com um dilema ético no ambiente do trabalho, deve-se adotar as seguintes cautelas:

  1. Refletir sobre o dilema: Procure entender claramente qual é o dilema ético em questão. Analise as diferentes perspectivas envolvidas e as possíveis consequências de cada curso de ação.
  2. Conhecer as políticas e os valores da empresa: Familiarize-se com as políticas, os valores corporativos e os princípios éticos da empresa em que trabalha. Compreenda as diretrizes e os princípios que devem ser seguidos e considere como eles se aplicam à situação em questão.
  3. Buscar orientação: Procure orientação de superiores, colegas de confiança ou profissionais de recursos humanos, sempre que possível, para compartilhar e ponderar suas sugestões. Discutir o dilema com pessoas que tenham experiência ou conhecimento relevante pode fornecer insights valiosos e ajudar a esclarecer a melhor abordagem.
  4. Avaliar as consequências: Considere as possíveis consequências de cada curso de ação disponível. Pense nas implicações para você, para os outros envolvidos, para a empresa e para a ética em geral. Pondere as alternativas de curto e longo prazo, além daquela que privilegie resultados mais positivos em detrimento de resultados mais negativos.
  5. Seguir sua consciência: Ouça sua voz interior e siga seus princípios éticos pessoais. Lembre-se de que é importante agir de maneira coerente com seus valores fundamentais, mesmo diante de pressões externas.
  6. Procurar soluções alternativas: Explore opções e soluções alternativas e análogas a situações já conhecidas que possam resolver o dilema de forma ética. Às vezes, pode ser possível encontrar uma terceira via que respeite os valores envolvidos e minimize danos.
  7. Comunicar-se de forma adequada: Se necessário, comunique sua posição às partes relevantes envolvidas no dilema. Expresse suas preocupações éticas de maneira clara, transparente, objetiva e respeitosa. Se possível, apresente sugestões construtivas para resolver o dilema de forma ética.
  8. Documentar tudo: Mantenha um registro detalhado de todas as etapas do processo, incluindo datas, locais, pessoas, conversas e decisões tomadas. Essa documentação pode ser útil no futuro caso surjam repercussões ou consequências inesperadas decorrentes da sua decisão.
  9. Buscar apoio externo: Se a situação persistir ou se você acreditar que ocorreu alguma violação ética séria, pode ser necessário buscar orientação externa, como um consultor jurídico, uma linha direta de ética ou uma agência reguladora adequada.

É preciso considerar que, assim como a própria ética, cada dilema ético pode chegar a um resultado influenciado por uma variável não existente em outro dilema ético análogo, por exemplo, a intenção do agente, os valores da empresa e assim por diante.

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